Mostrando postagens com marcador concorrência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador concorrência. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Série Brasil 2015

Inspirado na edição nº 31 da Revista Mundo Corporativo, da Consultoria Deloitte, decidi escrever uma série de posts relacionados a perspectivas da economia brasileira para 2015. Nos últimos anos, o Brasil apresentou uma trajetória de crescimento econômico significativo - exceto em 2009, decorrente da crise financeira global - impulsionada por uma maior expansão da renda e do crédito, bem como diminuição da taxa de desemprego, que propiciaram o ingresso de mais de 30 milhões de brasileiros na classe C.

Todos esses fatos citados acima - em comunhão a outros, como o aumento da taxa de penetração de computadores com internet na residências brasileiras - provocaram mudanças no perfil de consumo das pessoas, sendo alvo de inúmeras pesquisas. As classes C, D e E, até então ignoradas por muitas dessas pesquisas, hoje representam 50% do consumo nacional, ainda que sejam 85% da população brasileira. Os hábitos de consumo dessa parcela da população ainda são pouco conhecidos, por isso, aqueles que identificá-los primeiro saem na frente na corrida pela confiança desses consumidores. Devido à dimensão das mudanças que o país tem vivenciado, irei escrever essa série de posts. Aguardem!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Um por todos e todos por um... desconto!!

Não sei se todos sabem (ainda que a descrição do blog já fale disso), mas eu sou um entusiasta de e-commerce. Fascinado por práticas de consumo e inteligência competitiva, acredito que a internet representa um cenário propício a grande aprendizado nessa área, uma vez que proporciona aos agentes envolvidos nas transações comerciais uma série de possibilidades inexistentes no “mundo real”, daí o meu grande interesse por e-commerce. Já tem algum tempo que venho querendo escrever aqui sobre algo diretamente relacionado ao comércio eletrônico e aproveitando a matéria da VEJA desta semana (16 de fevereiro de 2011, edição 2204), decidi então escrever sobre o fenômeno dos sites de compras coletivas.

Para aqueles que não sabem, os sites de compras coletivas baseiam-se na idéia de se lucrar na quantidade, oferecendo serviços e produtos de outras empresas com descontos que variam entre 50% e 90%, recebendo em troca uma comissão em cima daquilo que for vendido. Esse novo mercado surgiu há pouco tempo, sendo que o primeiro negócio do gênero apareceu em 2008, no EUA. No Brasil, este serviço surgiu há pouco mais de um ano, porém os números brasileiros impressionam.

Segundo a reportagem, nesse curto espaço de tempo em que o mercado de compras coletivas teve início no país, surgiram 400 empresas do ramo, as quais atuam em 45 cidades, e outras 600 estão por vir até março. Atualmente, há 4 milhões de brasileiros cadastrados nesses sites, o que lhes garantiu um faturamento de 200 milhões de reais em 2010. Segundo previsões, espera-se que o número de cadastrados quintuplique até o final do ano, bem como o faturamento anual do setor. Apesar disso, esse mercado encontra-se concentrado: 80% da participação nesse mercado é composto pelas empresas Groupon, Peixe Urbano, ClickOn e Imperdível. Os 20% restantes é representado por empresas menores, sem grande representatividade no mercado e que possivelmente serão “engolidas” por empresas maiores, que possuem mais capital e expertise sobre o mercado eletrônico, elementos inexistentes em muitos dos proprietários de sites de compras coletivas. Por favor, não vamos confundir mercado concentrado com ausência de competição. Muito pelo contrário, mercados oligopolísticos são os que apresentam competição mais acirrada!

Justamente por deterem o poder de mercado descrito acima, estes sites maiores podem concorrer a preços mais baixos e o raciocínio disso é simples: devido ao grande número de acessos aos sites tipo o Groupon, empresas que anunciam nesses sites podem oferecer descontos maiores, pois o grande número de acessos garantirá uma grande visibilidade ao produto/serviço oferecido e, por conseqüência, haverá um grande número de compradores. Os sites, por sua vez, podem cobrar comissões maiores dos anunciantes, uma vez que inspiram maior confiabilidade nos consumidores e, consequentemente, atraem um número maior destes e proporcionam melhores resultados às empresas que recorreram a esse serviço. É sabido, contudo, que muitos dos anúncios não cumprem o prometido, ocorrendo, inclusive casos de discriminação entre clientes. Muitos dos sites nem ao menos visitam o local de seus anunciantes, o que corrobora para acontecimentos desse tipo (em contrapartida, os sites maiores ganham mais confiabilidade justamente por prezarem pelo que está sendo anunciado em seus domínios). Porém, a insatisfação do cliente será assunto de um próximo post.

Resultados controversos

De fato, esse novo mercado proporciona uma intensificação no nível de transações, favorecendo a economia do país, de maneira geral. Contudo, os resultados para as empresas ainda são pouco precisos e, no geral, variam de caso a caso. Muitas empresas utilizam esse recurso para divulgar seus serviços e ampliar sua participação no nicho de mercado do qual participam, esperando, com isso, conquistar clientes fiéis que retornem mesmo com preços normais. Porém, muitos dos compradores não possuem condições financeiras de adquirirem determinados produtos e serviços caso estes não estejam em promoção. Dessa forma, pode-se obter um ganho de público pontual, todavia, este não se tornará um público consumidor cativo, não agregando real valor negócio.

Por ser um mercado muito recente, os números acerca das compras coletivas ainda são pouco precisos. Prever as reais dimensões que este mercado irá tomar no futuro seria uma grande tolice e perda de tempo, porém, pode-se dizer que o próximo passo dos sites de compras coletivas seria o de atuar mais focado em diferentes nichos de mercado. Desse modo, haverá maior precisão na busca de se satisfazer o consumidor, bem como maiores ganhos diferenciais para aqueles que deterem melhores informações sobre seu respectivo mercado-alvo. Uma forma de se alcançar isso é através de monitoramento e gestão de mídias sociais eficientes, o que ainda recebe pouca atenção de muitas empresas e será, também, assunto para um próximo post.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Intervir ou assistir: eis a questão!

Ontem pela tarde li um artigo que o Delfim Netto escreveu para o Valor, postado pelo Alfredo Passos em seu blog, e decidi escrever sobre o texto aqui no Trilhas. Diga-se de passagem, o blog do Alfredo é bem legal! Em meio a uma crise financeira de proporções tão alarmantes como foi esta última vivida pelo mundo, era de se esperar o aumento no nível de desconfiança sobre o sistema financeiro, aumentando os problemas de risco moral (risco existente ao se tomar alguma decisão financeira em que um dos agentes envolvidos possui mais informações do que o outro, a chamada assimetria de informação) e seleção adversa (também influenciada pela assimetria de informação, que leva o agente a "selecionar" serviços e bens de mercado de forma incorreta). Ainda que o sistema de economia de mercado tenha sido fortemente abalado, também não acredito que o mesmo esteja em ruínas, bem como acredito ser este o melhor já vivido pela humanidade até hoje. Devo reconhecer que tal sistema não é perfeito, porém, é o que me parece mais justo ao se colocar o enfoque no homem, enxergando-o enquanto indivíduo econômico, pois preza pela meritocracia. Repito que isto não torna a economia de mercado imune a falhas - elas existem e são muitas!

Nesse sentido, acredito na presença do Estado indutor (constitucionalmente controlado - nas palavras de Delfim) enquanto agente responsável pela manutenção da concorrência e da economia de mercado. Não acredito em sistemas perfeitos, com níveis ótimos de satisfação entre ofertantes e demandantes, em que o processo concorrencial por si só é um alocador ótimo de recursos ou cuja toda soberania na tomada de decisão esteja nas mãos de um único agente - o Estado.

Enquanto estudante de economia, a minha visão do mercado é: existem inúmeras necessidades humanas e estas se modificam muito rapidamente. Portanto, para que estas sejam atendidas, devem existir agentes interessados em atendê-las, visando obter, em contrapartida, algum ganho adicional por tal esforço: o lucro. De imediato, pode-se excluir o Estado do “hall” dos agentes responsáveis por suprir necessidades tão diferenciadas, inclusive, por não deter recursos suficientes para serem investidos nesse processo. Sobram as empresas. Contudo, visando obter lucros "extraordinários", estas podem recorrer a práticas pouco apreciáveis, até mesmo antiéticas, necessitando de regulação. Um exemplo claro disso é a possibilidade de cartel, em que os produtores combinam preços e extinguem as práticas concorrenciais, cujo principal reflexo é sentido pelo consumidor, agora submisso a preços menos competitivos e produtos de qualidade inferior (se não há concorrência, não há estímulo para se inovar e alcançar fatias mais expressivas de mercado ou lucros extraordinários). Justamente por isso que existe o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), cuja finalidade é a de “orientar, fiscalizar, prevenir e apurar abusos de poder econômico, exercendo papel tutelador da prevenção e da repressão a tais abusos”, vide site do próprio Conselho.

Segundo Delfim, para que a economia de mercado ocorra, faz-se necessário que a sociedade aceite e dê dignidade às atividades realizadas pelos inovadores e que estes possam se apropriar dos benefícios de suas realizações, porém, isto imprescinde das mãos de um Estado indutor, “com mãos leves e amigável em relação a eles”. Assim, Delfim chama atenção de que era esse Estado “amigável” com os empreendedores que faltava na China e na Índia até 1978 e 1991, respectivamente:

O que faltava era um Estado indutor que: 1) respeitasse e dignificasse a atividade do setor privado; 2) libertasse o “espírito animal” dos empresários para utilizar e dar maiores oportunidades de progresso à mão de obra; e 3) garantisse que cada um poderia apropriar-se dos benefícios de sua iniciativa.”

Eu tenho que discordar. O Estado na China foi sim o grande responsável pelo incrível crescimento econômico do país, atraindo capitais estrangeiros para o país. Porém, isto foi feito às custas de uma manutenção artificial da moeda chinesa desvalorizada em relação às moedas de outros países, de uma legislação trabalhista praticamente inexistente, permitindo a submissão dos trabalhadores a extensas jornadas de trabalho sendo miseravelmente remunerados e, principalmente, do desrespeito ao direito de propriedade, pois as tecnologias e o modo de produção trazidas por empresas estrangeiras são copiados e utilizados por empresas chinesas para confeccionar produtos semelhantes. Assim, não concordo que o Estado chinês tenha sido indutor, com mãos amigáveis, muito pelo contrário, garantiu que cada um poderia apropriar-se dos benefícios de sua iniciativa – no caso chinês, leia-se iniciativa de descobrir o modus operandi patenteado por outrem e passar a produzir réplicas idênticas.

Delfim acredita que o mesmo fenômeno de aceleração econômica aconteça na Rússia, país que ainda apresenta fortes resquícios da ineficiência e baixa produtividade da URSS. Segundo ele, o Estado teria papel crucial nesse processo, privatizando parte de suas funções e passando a atuar com mais afinco em outras – a exemplo do protecionismo e do subsídio de alguns setores, como o automotivo, o aeroespacial e a agricultura. Eu particularmente não acredito que práticas protecionistas sejam o melhor caminho para se construir uma economia sustentável e competitiva. Ao contrário, sou convicto de que investimentos em educação e tecnologia são os verdadeiros responsáveis por construir as bases de sustentação de uma economia sólida e competitiva a longo prazo.

Finalizando, concordo com Delfim no que se refere à economia industrial como “a face” mais importante da economia, devendo ser priorizado em detrimento do capital financeiro. Contudo, o capital financeiro não pode ser ignorado, pois propicia a realização de uma série de investimentos em capital fixo, gerando emprego e renda e, por conseguinte, apresentado efeitos multiplicadores positivos e reais na economia de um país.